
Cinco da tarde. Por detrás do balcão, o sapateiro tenta descobrir, entre tantas dezenas de botas, as que me pertencem.
- "Não são estas"- São altas demais - diz, como se pela minha cara soubesse exactamente que não calço nada com mais de quatro centímetros de salto. - "Estas são compridas...e as suas são curtas", completa, conhecedor.
Observo a pequena loja desarrumada, onde sapatos e botas se amontoam. Gosto do cheiro a graxa, lembra-me outros tempos, aqueles em que um par de sapatos se reformava em cada estação, ora com meias solas, capas, ou uma pintura. Tinham de durar anos e assim o era.
A um canto, à máquina de coser, estava uma mulher. Óculos postos, dedos certeiros a manejar com precisão um bocado de cabedal. Sem levantar os olhos perguntou-me quando lá tinha deixado as botas.
-"Deixei ontem de manhã, dois pares, umas pretas e uma cinza"- esclareci. A mulher assentiu.Foi só para puxar conversa mas eu não tinha muito para dizer.
O sapateiro continuava a árdua tarefa de tentar encontrar as minhas botas até que, com um sorriso, retira de um monte uma delas, triunfante. - "Está aqui uma, agora só falta a outra" - e lá remexia os muitos pares perante a minha crescente preocupação.Lá fui descrevendo as botas enquanto ele acenava com a cabeça, parecendo lembrar-se muito bem. Reparei nas suas mãos sujas, na camisola de lã sem espaço para mais borbotos, nas pantufas que calçava, nos tiques da sua boca que se num momento parecia estar a sorrir, no seguinte parecia fazer beicinho. A mulher, de costas voltadas para ele, não disse mais nada nem nunca levantou o olhar da sua tarefa. Reparei que não devia ser muito velha, mas a curvatura das costas rendidas aos muitos anos de trabalho, conferiam-lhe um peso duro de suportar.
Passaram-se alguns minutos mais e eu não conseguia deixar de observar aqueles dois, e imaginar como seria a sua vida fora daquela loja. Os meus pensamentos foram interrompidos pelo tom contente do sapateiro que já tinha descoberto as minhas botas e agora as engraxava vigorosamente: "Estas capas vão durar o resto do Inverno. Uma maravilha, estas capas; sim senhora, uma maravilha!- e olhava para as botas com visível satisfação. Também a mulher se rendia à obra prima e contemplava as botas, impressionada.
Respondi: "Espero que durem, sim.." - Paguei, agradeci e saí dali ansiosa por chegar a casa e vir escrever. Há coisas pequenas, simples, rotineiras até, mas que por alguma razão merecem ter um pequeno espaço, eternizado na escrita.
3 comentários:
Lindo o que escreveste!
Já pensaste escrever um livro?!
:) por acaso o cheiro do "sapateiro" é algo que gosto... confesso que acho um piadão a tantos e tantos sapatos e encontrarem as coisas lá pelo meio e lembrarem-se quem deixou o quê!! eu que às vezes tenho que deixar coisas escritas para não me esquecer :)
beijinhos
O cheiro do sapateiro tb me faz recuar no tempo...
Gostei muito da tua descrição da cena. Beijoca.
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