Telefonei-lhe ontem, irritada, afinal a filha tinha faltado deliberadamente a uma aula de História e, aluna minha, NÃO PODE fazer isso!
-Pois, minha senhora, faltou e ainda me disse que não lhe tinha apetecido ir - redargui.
-Ai professora...não sei o que lhe diga. Amanhã vou aí, posso?
-Venha sim, ia mesmo pedir-lhe que viesse para assinar o Plano de Recuperação.
Hoje,à uma, lá estava a senhora sentada à minha frente. Ouviu-me quando lhe apresentei o Plano e, ao mesmo tempo, ia falando baixo e depressa , com uma voz grave e nervosa, os seus olhos raramente se fixando nos meus.
- A minha S. não tem desculpa, não senhora. Ela passou uns tempos difíceis, é verdade; tinha uma pai que não prestava para nada...pois, era toxicodependente...era...já não vive connosco mas ai quem lhe fale mal do pai, pois professora, o pai é tudo e ela ouve-o...a mim não. Eu sei que a culpa é minha, pois é. Nunca fui de bater no meus meninos. A Emília diz-me isso, a Emília é a madrinha do Miguel mas a S. é a ela que ouve. Ela ajudou a criar os meus meninos, setôra; pergunte-lhe setôra que ela diz-lhe; ela foi muito boa para nós e ainda é. Ó setora, os meus filhos têm educação! Posso não lhes dar tudo o que eles querem...sim, que a S. pede-me isto e aquilo e eu digo-lhe "a mãe agora não pode" e ela faz-me chantagem! sim, setora, a S.? ela faz chantagem, diz que vai pedir à avó e à madrinha e que se vai queixar que eu não lhe dou nada! Mas eu digo-lhe: S., diz o que quiseres que eu agora não te dou porque não posso...o pior é que depois às vezes dou. Dou e dei, deixei-a ir àquele passeio mas já não deixo ir ao próximo! Ai não vai não, a esse não vai! Eu sei que a setôra vai-me dar o papel mas eu não assino. Não vai...ela a esse não vai. - e ao mesmo tempo a voz sumia-se e os olhos fixavam-se nas cortinas do gabinete para depois os pousar na mesa. Sei que ainda falava, mas agora para dentro, para ela própria. Via-lhe os cantos da boca a mexerem-se ao de leve...
Tentei adivinhar-lhe a idade. É mania minha, faço sempre isso. Não deve ser muito mais velha do que eu - pensei.
Trazia vestido um polar branco, bastante gasto, calças de ginástica, ténis e um kispo. O cabelo encaracolado, farto e apanhado num rabo de cavalo mal preso, tinha várias cores, tantas quantas as das tintas usadas nos últimos tempos, para cobrir os brancos. Fixei-me nas unhas compridas, roxas, com brilhantes e o quanto destoavam do resto da indumentária...
O rosto tinha traços de uma beleza acabada, gasta. Nos olhos cor-de-mel e sem idade havia um brilho triste e preocupado. Faltavam-lhe muitos dos dentes da frente e, talvez por isso, a boca era como a dos idosos, enrugada, diminuta.
Distraí-me e nem reparei que tinha começado novamente a falar. - "...não queria que ela fosse como eu...só tenho a 4ªclasse, setôra, nem a consigo ajudar a fazer os trabalhos. Eu sento-me ao pé dela, sento-me e olho para os livros... mas aquilo é como se estivesse de olhos fechados, não percebo nada. Chamo logo o meu filho, ele sim é esperto mas a S. não gosta e diz que ele não é professor dela e não o deixa ensinar-lhe as coisas. É assim professora, ela secalhar vai ficar para trás outra vez, não vai? Eu não queria! Eu passo o dia todo a cozinhar, sou cozinheira, estou farta...não queria que ela chumbasse mas secalhar tem de ser. Ela até é adulta setora, ela só fala dos namorados das colegas, de um que é gótico, veja lá...gótico, que é que ela sabe disso? e dos pais da outra que se vão divorciar, ela sabe isso tudo, a matéria é que não. Já lhe disse: "S. concentra-te e deixa lá a vida dos outros! Preocupa-te com a escola, filha. Eu disse-lhe, setora, eu digo-lhe..ela é que é assim!
Este fim-de-semana não vai ver o pai...a setora havia de ver, ela ao pé do pai e ao telefone com ele é outra; comigo é que não. Fala mal e eu nem tenho mão nela. Ó setora quando ralhar com ela fale-lhe na Emília que a ela a S. respeita. Diga esse nome e vai ver! É o que eu faço, digo que vou contar à Emília o que ela faz!"
Tive de a interromper entretanto e estender-lhe o Plano de Recuperação para que o lesse. Não o olhou mais que uns escassos segundos e balbuciou baixinho, para si: "tantos numeros..."- assinou e devolveu-mo na ponta dos seus dedos de unhas roxas. Ficou ali sentada mais um bocado, a falar, a falar. Lá arrumei os dossiês como que pondo um ponto final na conversa e ela levantou-se, percebendo que o seu tempo tinha acabado.
Agradeceu-me e foi-se afastando, falando consigo própria na sua voz grave, baixinho, baixinho.