Sexta-feira, cinco da tarde, bato a porta da sala, digo adeus à colega, despeço-me de alguns alunos que se deixam ficar para o fim e nos roubam um beijinho tímido: "Adeus stora, bom fim de semana, até quinta!"
Só os conheço há uma semana mas já gosto deles. Já gosto muito. Ficaram esquecidas as palavras mais ríspidas desta manhã, o ralhete fenomenal que lhes dei por terem feito barulho na SMat. Já se esqueceram e eu também. Gosto deles, gosto de ser a sua directora de turma, gosto de ser a substituta da mãe deles a quem vêm agarrar-se no recreio, a quem se queixam dos mais velhos -"os grandes bateram-nos, stora"!!.
Já não passava por isto há 9 anos, o mesmo tempo em que andei na coordenação do meu departamento. Já me esquecia de quanto é trabalhoso ser DT, da papelada, dos muitos dossiês, dos telefonemas para casa quando os pais se "esquecem" de mandar os filhos à escola e ainda hoje foram dois:
-Está sim? Daqui fala da Escola X, sou a directora de turma da sua filha. Ela está a faltar e eu queria saber o que se passa.
- Sim doutora! Sabe...ela não está bem a faltar...é que..sabe doutora, houve uma zaragata...nós somos ciganos e sabe como é que é. Um familiar nosso foi pró hospital doutora e nós foramos todos pra lá doutora. Ela amanhã já vai...não amanhã não. Segunda já vai, na se preocupe. Hoje já aí mando a mãe dela pra falar consigo doutora. Adeus doutora. Obrigado.
(...)
- Está lá?
- Sim, boa tarde, queria saber o que se passa com a T. Ela ainda não apareceu na escola e a matrícula está incompleta.
- Ah..sim. Pois, eu não sei não professora. Eu sou tia dela. Eu posso falar com a mãe dela mas não sei mai nada professora.
- Mas este número que marquei diz que é da encarregada de educação da T. Não é a senhora?
- Eu nem sei porque é que o meu número tá aí, não!
- Pois...está no processo da aluna.
- Ah...pois...num sei. Mas eu vou falar com a mãe dela sim senhora. Obrigada.
(...)
Depois há ainda aqueles telefonemas penosos que eu dava tudo pra não ter de fazer... que isto de pedir para um aluno vir à escola quando se sabe que mal ele venha nos vai estragar a turma não é tarefa fácil... mas cabe-nos a nós fazê-la, por mais que nos custe..
É sexta-feira. Bati com a porta às cinco, é verdade, mas a escola ainda me ocupa os pensamentos. Vejo e revejo mentalmente os passos dados, as estratégias que defini, umas com sucesso, outras com um quê de fracasso e sei que é mesmo assim; não se ganha nem se perde sempre. Apesar de tudo ganha-se experiência e faz-se a avaliação dia-a-dia, semana a semana.
E esta semana até que não foi má.